terça-feira, 18 de março de 2008

Gosto de fim de Cigarro


As vezes você tem que descansar.
Depois, você acorda com a suave repercussão de bolhas arrebentando no fundo de sua cabeça enquanto a tensão se dissipa. É um novo dia.
Você acende um cigarro, o gosto sujo desperta seus sentidos para o mundo lá fora, um mundo nada limpo, tão pouco formoso.
Nada mudou. Tudo é diferente. O toque do calor acaricia sua face. Lá fora, o mundo grita sua afirmação de existência.
Você se irrita ao acusarem seu bom humor, eles dizem: “A patroa lhe deu um trato?”.
Se você pode deixar toda esta demência corrosiva lá fora, reduzi-la a um ruído de fundo, abafa-la... Por que não o faz, então?
Se o mundo pode ser como nós o imaginamos, você pensa... ”Por que não imaginá-lo de um jeito mais agradável?”
Você sente uma melancolia... Mas é apenas o gentil e consolador abalo da nostalgia.
Talvez seja assim que você saiba que está ficando velho... Que já fez estragos o suficiente
Talvez seja assim que você saiba que é hora de pendurar as chuteiras... De relaxar e voltar à infância, seguro em um jardim murado.
Você ri de seu próprio sentimentalismo, mas o vestígio daqueles pensamentos permanece por um instante... Sedutores, cruéis...
Mas você continua. Você está forte hoje, resistente a qualquer mudança atmosférica... Aceitando que você tem A Decisão...
Decisão de levar a vida como você quiser...
Seus velhos amigos não lembram do seu verdadeiro nome... Que época era aquela?
Enquanto você simpatiza com a humanidade dos seus amigos suas tripas gralham como uma revoada de corvos... Lasanha de espinafre com vinho fino não são para seu estomago de pobre.
E então você sente o calor do início de seu dia perfeito começar a se dissipar. Sente as sombras se fechando. Seu estomago gritando novamente.
Em algum lugar, uma ansiosa arritmia quebra a harmonia do dia, será seu coração?
Você começa a sorrir para um erro ortográfico.
Mais tarde, você vai querer saber por que está sorrindo.
Você se levanta e sai. Nada mudou... Tudo é diferente.
Você está semi-consciente de uma quase esquecida intenção. Alguém para encontrar; algo para fazer; uma decisão a tomar?
Você está com frio, incomodado, está perdido... Mas por algum motivo, despreocupado.
Você desvia de algo saído da toca, girando por esta nebulosa e monocromática cidade graças ao forte e irritante vento.
E agora você percebe que há pessoas aqui. Mas algo estranho, as luzes as ofuscam... Como a luz do sol em uma tela de tv.
Você pára e pergunta, só por perguntar, o caminho para algum lugar, apesar de não ter lugar nenhum pra ir. Você abre a boca e vomita uma cacofonia. Você não consegue falar. Está preso dentro de você mesmo... A comunicação foi cortada.
Você costuma conceitualizar... Mas conceitos são inúteis quando você emudece pelo choque e é incompreendido; mudo num mundo de palavras.
Você está ferido; zangado; frustrado. Você se recolhe nas sombras. Você fica quieto. Fica em silencio.
E então você se dá conta de que existem outros como você... E eles estão passando; caminhando em respostas à persistente e esporádica batida.
Você os segue... Felizmente ignorando o fato de que não há alternativa.
Você diz: “Não estou entendendo”
Eles dizem: ”E por que deveria? Isto não faz o menor sentido”
Você diz: “Onde estou?”
Eles dizem: “Não faz pergunta difícil em tempos de turbulência!”
Nada mudou... tudo é diferente. Você entra no meio do murmúrio de vidas comprimidas, palavras isoladas se chocando uma na outra...Então, correndo contra a maré, como sempre, você procura algum lugar longe dessa frivolidade.
Algum lugar onde você possa descansar em tranqüila solidão e devaneio.
E então você se senta e, indolente, tenta descobrir onde entre todos estes mundinhos fúteis você normalmente se encontraria... E, lentamente, o rouco tagarelar de seus semelhantes é sufocado pelo suave sussurro de explosões infinitas da pólvora em seu cigarro queimando.
È o fim do cigarro...

3 comentários:

Ellen Fernandes disse...

Interessante como transformou um instante em uma vida!

Como pode mundos tão distantes, serem tão paralelos..é impar o sentimento do qual atropelamos, o ser humano é estranho, sempre acha é o fim do mundo...mais na realidade é só mais um dia.

Clementine disse...

nenhuma mudança coração?!
nessa realidade fotografada em letras e entrelinhas?!

achei super bacana você sabe.
achei que não faltava nada.
achei que fotografias são assim mesmo.
uns momentos, umas cores, umas coisas. transpassando toda a sinceridade do pensamento mudo.

beijo

Sam Lefay disse...

será o cigarro tão atemporal assim?
te leva a outra dimensão, como se vc estivesse numa espécie de purgatório. palavra escolhida pra definir um mundo de pesar criado pelo próprio sistema..
e em meio as brumas lá está um lobo solitário, vagando na solidão inventada.
=*